Gabi Rocha diz: "na dúvida, use preto". E não é sobre roupas.

Atualizado: Jul 7


Conversei com a Gabi Rocha, uma mulher preta, mãe, trabalha com direção criativa, personal stylist, produção de moda e figurino e pedi para ela me falar um pouco sobre tudo isso.

Entre outros, ela faz um trabalho lindo com mulheres artistas pretas da cena independente e tem o delicioso, e não tão fácil, desafio de ser mãe de 2 crianças pretas em uma sociedade racista como a nossa. Vem ler!  


[M.D] Gabi, qual é a diferença do seu trabalho de consultora de estilo e stylist? E por que são trabalhos que vão muito além da montagem de lookinhos?


[G.R] Na consultoria de imagem eu levo em consideração a identidade, personalidade, lifestyle e rotina. É bem vida real.

No stylist eu trabalho mais a imagem, é estático e feito para um objetivo final. Eu uso a personalidade e identidade do artista ou não, depende do que queremos falar. Aqui dá para brincar, manipular, produzir mais, dar umas "brisadas".

Nos dois casos é muito mais do que montagem de looks porque tem muita técnica, eu estudo horrores, faço muitos cursos, tem que estar atualizada.

Na consultoria de estilo tem que ter muita sensibilidade para traduzir a demanda e as dificuldade da cliente, é uma grande responsabilidade. A gente se envolve completamente com a pessoa, com seus sonhos, são coisas bem particulares. Tem que ter muito respeito.

No trabalho de stylist, o processo criativo para traduzir em imagem de moda pede muita pesquisa de comportamento, cultura, política e etc.

Muita coisa que está acontecendo não dá mais para aceitar, por isso preciso estar sempre antenada, atualizada.

E a pesquisa serve para isso. Tudo o que escolho é para dar sentido, não é só porque achei bonitinho. Tem que ter fundamento, misturado com minha vivência, experiencia e aí entra a parte criativa.


[M.D] Sei que você produz artistas com mensagens poderosas, muitas delas mulheres negras. Mas também sabemos que o mercado da moda tem muito o que aprender em relação ao racismo. Na sua opinião, que é mais urgente mudar?


[G.R] Eu tenho muitos trabalhos relacionados à produções culturais com o viés da cultura preta, público preto em geral e mulheres da cena independente.

Hoje, para mim, o maior problema é a estrutura, a base. Não ser notada, ser invisibilizada o tempo todo. Ser excluída das opções. O sistema é muito injusto e desigual, a oferta de oportunidades é desigual. É como uma corrida que já começamos muito atrás. Não há acesso e nem oportunidades. E quando a gente acessa, já tem um outro degrau com muitos obstáculos, tem que provar 10x mais que somos competentes. Além do capital super concentrado que não chega a nós.



[M.D] Qual é o papel das pessoas não-pretas na luta contra o racismo?


[G.R] O papel de não-pretos na luta é o de usar os privilégios para tentar minimizar, de alguma forma, essa tragédia. É uma tragédia porque morre muita gente, o racismo mata. É a cultura da morte, é horrível!

Não-pretos devem empregar, contratar, devem fortalecer os coletivos. Não é só sobre os profissionais, tem que investir em campanhas.

Para mim não existe ex-racista e o Brasil é um dos países mais racistas do mundo. Tem que se educar, ensinar para o outro branco, tem que agir e ter práticas anti-racistas.

A responsabilidade do racismo é do branco, não do preto.

[M.D] Qual é o papel das marcas, canais de comunicação e outras vozes potentes na luta contra o racismo?


[G.R] As marcas e canais de comunicação devem utilizar esse meio para instruir as pessoas com práticas antifascistas e usar de fato esse privilégio para comunicar e atingir mais gente, utilizar esse ensinamento e passar conhecimento, dando voz para pessoa pretas no sentido de colocá-los em posições de lideranças, não como coadjuvantes e sim como sócio, como chefe, desenvolvendo projetos. Colocar pessoas pretas para falar sobre o preto.

Já há muita apropriação cultural e as pessoas não-pretas que lucram com tudo isso. Devemos ter pessoa pretas em lugar de liderança dando origem a essas ideias.


[M.D] Lembrando que você é uma mulher feminista, preta, forte; o que é maternidade para você?


[G.R] A maternidade como mulher preta já é viver contra o sistema. Sim, é extremamente prazeroso, mas esse lugar de lutar contra sistema opressor e com 2 filhos pretos é cansativo, no meu caso a luta é 3x maior.

Há muito amor, mas tenho muito medo da violência em todos os sentidos. O tempo inteiro estou antenada em relação à eles, como eles são recebido, como as pessoas se comportam com a chegada deles. Tenho que prepará-los e protegê-los. Eu até tenho vontade de ter mais filhos, mas o sistema desencoraja. Tenho muitas amigas pretas que desistiram da maternidade por conta do medo.

(aqui tem uma outra entrevista que a Gabi deu para a Didática Preta falando sobre isso) 


[M.D] Qual é a forma correta de falar: preta, negra, os dois ou nenhum ?


[G.R] Eu sempre falei das duas formas, negra e preta.

Mas algumas pesquisas mostram como a palavra negra é relacionada a coisas ruins. Alguns pensadores e formadores de opinião vem discutindo esse assunto de que, culturalmente, quando falar preto tem sentido positivo e negro, negativo.

Para mim essa justificativa já é muito relevante. Por isso uso mais preto, tenho evitado negro.

Na dúvida, use preto.

Espero ter escurecido algum desses temas.



Gabi para mim é referência de mulher e de profissional que me ensina todo dia, mais ainda nos tempos atuais.

(Essa entrevista foi feita em julho/2020)

foto 1: @umdoisestudios

foto 2 e 3: arquivo pessoal

MODA CONSCIENTE // COM PROPÓSITO  //  +SUSTENTÁVEL 

MANO DAFFRE

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